Hoje olhei para o mundo , contemplei o em silêncio , estava concentrada na procura continua daquela famosa e verdadeira vontade de viver , mas havia algo de estranho , a cara penetrante das pessoas sobrepunha-se aos fios de luz intensos que insistiam iluminar os seus dias , os seus cabelos flutuavam envoltos no vento que soprava os seus mistos perfumes , os seus olhos eram excessivamente pintados e as suas caras cobertas por um pó que permitia ocultar todas as suas imperfeições , as crianças choravam , em simultâneo eram puxadas pelos seus frágeis braços , e seguiam na correria , não sabendo bem o porquê , mas talvez porque tinham de se apressar , passavam a correr por montras que rejubilavam alegria e transmitiam bonitas mensagens , sem sequer terem tempo para as tentar decifrar , eu continuava aqui sossegada a observar , observava o ritmo acelarado com que as pessoas levavam a vida , no silêncio que as suas bocas faziam toda a vez que saiam de qualquer loja , na felicidade transitória com que seguravam os seus sacos , em contrapartida , outras tentavam ser o mínimo gentis , e acenavam com a cabeça quase ao mesmo tempo que atiravam com os olhos para o chão , e outras sem manter qualquer contato visual com o redor , não se apercebiam das pessoas que velozmente iam passando , a não ser nos seus bonitos sapatos , que rapidamente as faziam mudar de rumo para tentar obter uns iguais , e assim continuou a incessante rotina , em que as pessoas sem se aperceberem tornavam-se prisioneiras do tempo , escravas da beleza , da perfeição , construindo a cada dia mais um mundo desprezível para aqueles que trazem a poesia esculpida nos olhos .

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